Cresce popularidade de “pais virtuais” na China

A crescente popularidade dos chamados “pais virtuais” tem revelado uma mudança no comportamento de parte da juventude chinesa, especialmente entre millennials e integrantes da geração Z. Em vez de buscar apenas entretenimento nas redes sociais, muitos jovens passaram a procurar figuras maternas e paternas mais acolhedoras do que aquelas que encontram dentro de casa.
O fenômeno ganhou força a partir de 2024 na internet chinesa, principalmente no Douyin, versão chinesa do TikTok, e vem cescendo na atualidade. Entre os nomes mais populares estão os influenciadores Pan Huqian e Zhang Xiuping, um casal de meia-idade que produz vídeos simulando conversas afetuosas com os seguidores, tratando-os como filhos. Em um dos vídeos mais conhecidos, eles dizem frases como: “Não se force demais. Mamãe e papai sabem que você suporta muito por aí.”
A identificação de muitos jovens com esse conteúdo está ligada à relação tradicional entre pais e filhos na China, frequentemente marcada por cobrança, obediência e pressão por desempenho acadêmico e profissional. Muitos relatos descrevem famílias pouco afetuosas e excessivamente exigentes. “Meus pais nunca me dizem para não me forçar demais”, afirmou um jovem entrevistado na reportagem original. “Os pais virtuais só me perguntam se estou feliz hoje.”
A discussão se espalhou também pela rede social chinesa RedNote. A hashtag “pais chineses” ultrapassou 500 milhões de visualizações e acumulou mais de 1,2 milhão de comentários, com milhares de jovens compartilhando experiências negativas dentro de casa e comparando-as ao comportamento mais acolhedor dos influenciadores digitais.
A pressão familiar se tornou ainda mais intensa entre filhos únicos, consequência direta da política do filho único adotada na China entre 1979 e 2015. Muitos jovens relatam que, além da cobrança por estabilidade financeira e sucesso profissional, sofrem pressão constante para casar, ter filhos ou seguir carreiras consideradas mais prestigiadas pelos pais.
Foi nesse contexto que os “pais virtuais” passaram a ganhar espaço. Alguns seguidores enviam mensagens diárias aos influenciadores, pedem conselhos, relatam problemas emocionais e chegam a chamá-los de “mãe” e “pai”. Em um dos casos relatados, Pan contou ter conversado durante horas com uma jovem que dizia sofrer de depressão e ter pensamentos suicidas. Dias depois, ela voltou a procurá-lo dizendo que estava melhor. Segundo Pan, a experiência o marcou profundamente: “Percebi que havia feito algo muito significativo e me senti orgulhoso por muito tempo.”

