As Irmãs Romanov – Helen Rappaport

O livro As Irmãs Romanov: a vida das filhas do último tsar, como o próprio nome sugere, não enfoca especificamente a vida política nos últimos anos do império russo. Em vez disso, ele busca traçar um retrato minucioso do cotidiano das quatro filhas do casal imperial, as princesas Olga, Tatiana, Maria e Anastácia.
A obra foi escrita pela historiadora Helen Rappaport e, embora possa ter uma leitura um pouco arrastada em função das inúmeras referências bibliográficas, revela-se muito rica justamente por conta de todo esse material histórico que a autora levanta para reconstruir a vida das grã-duquesas. As fontes principais de Rappaport são os diários e cartas escritos pela família imperial ao longo dos anos. Assim, ela conta de forma cronológica a história dessas quatro meninas, partindo do casamento dos pais e dos valores que formaram os alicerces de sua mãe até o dia da morte de toda a família.
Ao longo da leitura e ao final dela, tive compaixão pelas meninas. Minha sensação é de que elas não tiveram a oportunidade de conhecer a vida fora de um ambiente familiar superprotegido. Seguiam uma disciplina de estudos e afazeres que lhes preenchia todo o dia, eram católicas ortodoxas, e, embora as mais velhas quisessem, não tiveram a oportunidade contrair matrimônio. Uma mãe piedosa, mas supostamente hipocondríaca, um irmão hemofílico e as constantes conspirações contra a coroa do pai lhes obrigava a viver numa redoma de vidro, isoladas até dos eventos da Corte. Sabe aquele história das “pobres meninas ricas”? Pois é. E olha que elas não viviam na ostentação. Suas roupas e hábitos eram simples, uma vez que a simplicidade e a humildade eram valores importantes para seus pais.
Havia uma grande expectativa por parte da população, da imprensa e da própria família imperial pelo nascimento de um menino — que veio ao mundo portador de hemofilia três anos depois de Anastásia. Apesar da espera por um herdeiro para o trono, as meninas nunca foram indesejadas pelos pais, ao contrário. Muitas cartas trocadas entre o casal e entre os pais e as filhas mostram o quanto elas eram a alegria e felicidade da casa.
O casal, aliás, se amava muito. No mundo deles, bastava a família. E havia também o medo de ataques terroristas por uma população cada vez mais descontente com o império. De modo que a família quase não participava de eventos sociais e quase não aparecia em público. Suas aparições se restringiam a algumas solenidades e à Igreja, sendo que Alexandra, a mãe, muitas vezes indisposta e doente, se deixava substituir pela filha mais velha em muitas ocasiões, provocando a antipatia da população, que achava que ela não fazia questão de aparecer.
A reclusão fez com que as meninas tivessem poucos amigos e pouco trato em situações sociais. Seus amigos principais eram os professores que davam aulas em casa, as governantas e os guardas imperiais. Nas raras vezes em que Olga e Tatiana participaram de bailes na corte, elas mal sabiam as maneiras formais de se comportar e interagiam quase que exclusivamente com os soldados que já conheciam.
Com o início da Primeira Grande Guerra, as irmãs mais velhas passaram a atuar como enfermeiras, atendendo aos soldados feridos. Foi no contato com os soldados que Olga e Tatiana se apaixonaram pela primeira vez e sofreram a desilusão de não poder viver seus amores, uma vez que um eventual namoro com um soldado não era adequado a moças na posição delas. A pobre Olga chegou a entrar em depressão quando as circunstâncias fizeram-na se separar de seu soldado favorito.
Os últimos dias das irmãs foram particularmente tristes, marcados pelo isolamento da prisão domiciliar em que foram confinadas pelos bolcheviques e pela separação de pessoas queridas, que haviam trabalhado por anos para a família e construído laços de amizades com elas. Foram executadas ao lado de seus pais e irmão em 17 de julho de 1918.

