Conferência nos EUA discute os desafios do jornalismo na era da pós-verdade
A conferência que debateu o jornalismo num mundo de pós-verdade ocorreu nos dias 10 e 11 de março no Museu da Bíblia, em Washington. Organizada pela Franciscan University de Steubenville, ela contou com a parceria da Eternal Word Television Network (EWTN News), maior rede de mídia católica dos Estados Unidos.
Participaram do encontro jornalistas da FOX News, CNN, National Review, Washington Examiner, The Daily Signal, Catholic News Agency, The Daily Calle, GetReligion, entre outros veículos. Entre os temas tratados, destacam-se as ameaças à liberdade de expressão, a cultura do cancelamento, os preconceitos políticos e ideológicos contra cristãos e a hostilidade da grande mídia contra a fé católica.
Para os organizadores do evento, atuar no jornalismo contemporâneo exige um compromisso com a verdade e com as mais altas virtudes, ainda que isso resulte em ridicularização e em ataques da mídia tradicional e de outros jornalistas, hoje mais interessados em defender suas ideologias do que em se ater à verdade dos fatos.
“Não há dúvida de que vivemos na era da pós-verdade, uma época em que fatos objetivos são menos importantes para moldar a opinião pública do que emoções ou sentimentos”, disse o presidente e diretor executivo da EWTN, Michael Warsaw. “O campo do jornalismo está na linha de frente desse novo fenômeno e também é um participante ativo em sua disseminação pela cultura moderna”.
De hábito franciscano durante todo o evento, o frei Dave Pivonka, presidente da Franciscan University, destacou a importância de encontros como esse para renovar as esperanças dos jornalistas que atuam em um cenário de mídia muitas vezes hostil e tendencioso.
“Um corajoso compromisso com a verdade nunca foi tão urgente para os jornalistas como nos dias de hoje”, disse o frei. “Uma sociedade livre e pacífica, na qual o Evangelho pode prosperar, simplesmente não é possível a menos que os jornalistas cumpram sua missão com integridade e honestidade, completou.
O conceito de pós-verdade
O conceito de pós-verdade se popularizou em 2016, quando o vocábulo foi escolhido como a palavra do ano pelo Dicionário Oxford, publicado pela editora Oxford University Press, da Universidade de Oxford. O dicionário britânico constatou um uso crescente desse termo na cobertura de imprensa e nas análises políticas sobre o Brexit e as eleições americanas que resultaram na vitória de Donald Trump.
Como era de se esperar vindo da imprensa mainstream, o termo foi usado para tachar Trump e a campanha que levou a saída do Reino Unido da União Européia de serem disseminadores de notícias falsas. Exemplo disso foi o texto “A arte da mentira”, publicado na revista The Economist, que acusava Trump de ser o principal expoente da política da pós-verdade, que consistiria em passar informações que dão a “sensação de serem verdadeiras”, mas que não teriam nenhuma base real.
No verbete da Oxford, a palavra pós-verdade passou a ser definida como “relativo a ou que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influenciadores na formação da opinião pública do que apelos à emoção ou à crença pessoal”.
Ditadura do relativismo
Para os organizadores da Conferência, no entanto, só é possível se falar em pós-verdade num mundo entregue à “ditadura do relativismo”. Esse termo, usado pelo cardeal Joseph Ratzinger em sua última homilia pública antes de ascender ao trono de São Pedro como Papa Bento XVI, em 2005, descreve as novas bases do secularismo, em que se rejeita deliberadamente qualquer noção de verdade objetiva e se corrompe a linguagem para intimidar quem ousa afirmar uma realidade que contrarie os interesses ideológicos das elites culturais.
“A pós-verdade anda de mãos dadas com o que veio a ser chamado de ideologia woke, que tenta desacreditar e diminuir as vozes dos outros, mesmo quando o que eles estão dizendo é verdade”, disse Michael Warsaw na abertura do evento. “Os católicos só precisam olhar ao nosso redor para ver os efeitos da era da pós-verdade nas discussões sobre aborto, gênero, saúde e liberdade religiosa”, completou.
A ideologia woke ou wokismo está relacionada àquilo que no Brasil se convencionou chamar de lacração e de cultura do cancelamento, práticas nas quais o indivíduo de esquerda busca sinalizar falsa virtude por meio da defesa irracional do indentitarismo e do silenciamento de opiniões que destoem de certo manual do politicamente correto. Por meio dessa ideologia, os justiceiros sociais tentam impor uma visão fanatizada e idealizada da agenda identitária e tratam como ofensa intolerável a visão católica sobre a família e a sexualidade humana.
Comunicar a Verdade num mundo que corrompe a verdade
“Vivemos numa época em que o sexo biológico é contestado, enquanto a proteção da inocência das crianças está indo pelos ares, a dignidade da vida humana está aparentemente em debate e liberdades básicas, como o direito de rezar silenciosamente, estão sendo discutidas”, disse Mary Margaret Olohan, repórter sênior do The Daily Signal.
Durante os diferentes painéis, os jornalistas deram exemplos de como a mídia secular trabalha para promover o aborto e a ideologia de gênero, corrompe a linguagem promovendo mentiras, como chamar o aborto de direito sexual e reprodutivo, e coage qualquer um que se oponha a essa agenda.
Essa visão, que reflete a visão de mundo da elite cultural secularizada, encontra ecos também na sociedade, de modo que é praticamente impossível hoje tratar de temas políticos, sociais ou morais nas redes sem que haja comentários que descambem para xingamentos, ataques ad hominem ou acusações vazias de que a pessoa estaria produzindo “discurso de ódio”, “apropriação cultural”, despertando “gatilhos emocionais” ou se comunicando do alto do seu “privilégio” e sem “lugar de fala”.
Para Warsaw, mesmo nesta época em que os sentimentos importam mais do que os fatos e as elites culturais veem a religião como uma ameaça, a Verdade prevalecerá. “Nossa resposta às ondas de censura e intimidação exige, antes de tudo, coragem e firmeza. Continuaremos a enfrentar a intolerância e a censura por falar a Verdade, mas é uma causa profundamente digna”.
Segundo ele, os jornalistas católicos devem se lembrar que a razão está do lado da verdade objetiva. “Tal como acontece com o aborto e o movimento transgênero, a biologia, a medicina e o bom senso são algumas de nossas maiores ferramentas para educar, informar e abrir os olhos de uma cultura cada vez mais desnorteada e confusa”, alertou.
Entre as sugestões que ele deu aos jornalistas no desfecho do evento está a de construir alianças, amizades e colaborações, em todas as esferas da vida, entre aqueles que enxergam a mesma crise da era da pós-verdade. Mesmo que sejam aliados improváveis, com os quais não concordemos com tudo, Warsaw propõe encontrar um terreno comum em questões-chave, como a realidade biológica, a cultura woke e as mentiras sobre o aborto, para servirem de pontos de partida para a ação.
O jornalista também exortou os colegas presentes no evento a assumirem o compromisso de trabalhar para reconstruir os campos da mídia, das Big Techs e do jornalismo. “Nestes tempos desafiadores, não devemos nos permitir desesperar ou desanimar. E, como católicos, sabemos que é a Boa Nova que prevalecerá. Assim como a Igreja sempre fez em tempos difíceis, cada um de nós deve continuar a viver, pregar e difundir a Verdade de Jesus Cristo até os confins da terra”, ressaltou.
Sobre a EWTN News
A Eternal Word Television Network (EWTN) é considerada a maior rede de TV católica do mundo. Foi fundada em 15 de agosto de 1981 pela madre Maria Angélica da Anunciação, religiosa Clarissa, que transformou a garagem de seu mosteiro no estado do Alabama (EUA) em estúdio de TV.
A empresa cresceu de forma exponencial ao longo de mais de 40 anos. Hoje está presente em cerca de 150 países, transmitindo em quase 30 idiomas e chegando a mais de 310 milhões de lares diariamente. A EWTN também é proprietária de Rádio Católica Mundial (WEWN), a maior estação de rádio em onda curta privada do mundo, também com sede no Alabama.
Em 2011, EWTN adquiriu National Catholic Register, o jornal católico mais antigo dos Estados Unidos. Em 2014, fundiu-se ao Grupo ACI, que inclui ACI Digital, em português, com sede no Rio de Janeiro (Brasil); ACI Prensa, em espanhol, com sede em Lima (Peru); ACI Stampa, em italiano, com sede em Roma (Itália); Catholic News Agency, em inglês, com sede em Dever (Estados Unidos); e CNA Deutsch, em alemão.
Sobre a Universidade Franciscana de Steubenville
A Franciscan University de Steubenville, Ohio, nos Estados Unidos, é uma das 23 universidades ao redor do mundo endossadas como fielmente católicas pela The Cardinal Newman Society. Fundada em 1946, a oeste de Pittsburgh, a propriedade pertence aos frades franciscanos da Terceira Ordem Regular de São Francisco.
A universidade oferece um currículo abrangente de artes liberais, incluindo três cursos de teologia católica e três de filosofia. Os alunos podem escolher entre mais de 70 cursos em cinco escolas de artes e ciências, incluindo teologia popular e catequese, e os professores de teologia têm mandato do bispo local.
A vida espiritual no campus é dinâmica, com uma alta porcentagem de alunos participando da missa diária. Todas as quatro missas dominicais estão lotadas, fato que também se observa na missa semanal celebrada na forma tradicional do rito romano. A Adoração Perpétua é oferecida na Capela da Porciúncula durante o ano letivo, a confissão está disponível na maioria dos dias e há um Rosário comunitário durante a semana.

