No Ar Rarefeito – Jon Krakauer
Uma das leituras mais impactantes que fiz no ano passado, No Ar Rarefeito conta a história da tragédia de 1996, quando uma tempestade pegou um grupo de alpinistas de surpresa no Everest, tirando a vida de nove deles. A narrativa em primeira pessoa conta os acontecimentos pelo olhar do autor, o jornalista norte-americano Jon Krakauer, na época com 41 anos e vasta experiência como alpinista.
O autor já tinha produzido dezenas de artigos sobre o tema e foi contratado pela revista Outside para escrever sobre a crescente comercialização da montanha e a polêmica a respeito do assunto. O livro traz uma série de informações a respeito das expedições comerciais ao Everest. Em tese, se você tiver 65 mil dólares para desembolsar, os guias prometem tentar te levar ao cume, ainda que você não seja tão bom alpinista.
O próprio Krakauer, apesar de experiente, quando se juntou à expedição comercial do neozelandês Rob Hall, bancado pela revista, em março de 1996, nunca tinha passado dos 5240 metros, o que é inferir à altitude do acampamento-base do Everest.
Além da Adventure Consultants, de Hall, outra expedição comercial que disputava o mercado americano na época era a Mountain Madness, do norte-americano Scott Fischer. Mas essas não eram as únicas expedições presentes na montanha naquela temporada. O Everest estava lotado de outros grupos de alpinistas, gerando congestionamento em várias partes da subida.
O livro conta a história pela ordem cronológica dos fatos, quase como um diário de bordo do autor. Mas também se detém a falar sobre o perfil dos principais personagens envolvidos na tragédia, suas histórias e motivações para estar ali. O autor é extremamente verdadeiro na sua descrição dos fatos. Ele fala até dos diferentes problemas de saúde e da falta de conforto que as pessoas enfrentam desde antes do acampamento-base, como não ter banheiro para as necessidades fisiológicas, os desarranjos intestinais que acontecem, as dores de cabeça avassaladoras, as vertigens, a falta de ar, a tosse e a inflamação na garganta.
A forma como ele descreve a montanha e as diferentes partes da subida, com sua beleza e seus perigos, é tão gostosa que até dá vontade de virar alpinista. Confesso que em alguns momentos coloquei no Google o nome de alguns glaciares, rotas, passarelas e fendas da montanha, cruzadas por escalas colocadas por sherpas, só para visualizar melhor o caminho por onde passaram. Também joguei na internet o nome dos principais personagens da tragédia.
O fato de ser uma história real me deixou bem impactada. Algumas situações, embora eu já tivesse ideia de que pudessem acontecer, tornam-se muito mais perceptíveis e reais com a descrição do autor. Por exemplo, a existência de corpos congelados ao longo da montanha pelos quais os alpinistas passam com naturalidade, os cilindros de oxigênio vazios que são deixados ao longo do caminho na montanha, ou mesmo uma espécie de contrato social que faz com que, numa situação de perigo, um alpinista avalie as condições físicas daquele que estiver em pior estado. Se ele estiver beirando à morte, sem demonstrar condições de sobreviver à descida, não vale a pena para quem também está lutando pela própria sobrevivência levá-lo de contrapeso. Pois acabaria morrendo dois ao invés de um.
Nos eventos que se sucederam naquele fatídico 10 de maio, fica claro que esse tipo de raciocínio foi utilizado. Sem querer dar spoilers, pois esse livro vale muito a pena ser lido com as surpresas que ele apresenta, podemos dizer que a tragédia aconteceu por um somatório de fatores. Além da tempestade que pegou o grupo ainda descendo do cume da montanha, o fato de terem duas expedições subindo na mesma hora, com clientes com condições físicas não tão boas, também contribuiu para agravar o problema.
Na época em que li o livro, eu tinha acabado de fazer cirurgia de miopia, então a história do americano Beck Weathers me chamou muito a atenção. Por alguma razão, a cirurgia dele foi se revertendo à medida que ganhava altitude, e ele ficou praticamente cego quando já estava acima do acampamento 4, já em direção ao cume. Ele só conseguia enxergar luzes — e essa não foi a pior coisa que aconteceu com ele naquele dia.
Terminei o livro com uma sensação de perda e ressaca moral, muito compadecida pelo próprio Jon Krakauer, que saiu dessa tragédia extremamente abalado. Sua obra foi escrita em novembro daquele mesmo 1996, portanto seis meses após a tragédia. Ele conta na apresentação que várias pessoas e editoras o aconselharam a esperar mais para escrevê-la, para dar o distanciamento necessário. Ele diz que terminou por ignorar esses conselhos porque o que houve na montanha estava lhe roendo por dentro.
“Pensei que, escrevendo o livro, poderia expurgar o Everest de minha vida”, conta ele. “A verdade é que eu sabia que não deveria ir, mas fui assim mesmo. E, ao ir, acompanhei de perto a morte de pessoas boas. Isso é algo que talvez permaneça em minha consciência por muito tempo”.
Esse livro parece ser uma obra sobre uma tragédia ocorrida no Everest. Mas ele fala de algo muito pior.

