Mentir é pecado: uma lição para a direita brasileira

Quando o Brasil vivia o auge das discussões sobre o passaporte sanitário, a exigência de comprovante vacinal contra covid-19 para entrada em estabelecimentos comerciais e até para manutenção de empregos, muitos católicos, movidos por uma dúvida razoável, procuraram a orientação sacerdotal para saber como proceder nesses casos.
As razões alegadas para se ter restrições à nova vacina eram muitas. Variavam desde a velocidade com que ela fora desenvolvida, a novidade da tecnologia de RNA mensageiro (mRNA) em imunizantes, os baixos riscos da covid-19 em crianças e adolescentes saudáveis, as possibilidades ainda desconhecidas de efeitos colaterais e até mesmo a desconfiança gerada a partir violência com que o poder coercitivo internacional impunha essa nova regra, sem dar o direito ao livre debate de ideais.
Fosse como fosse, católicos queriam o direito de decidir o que inocular em seus corpos, que são templos do Espírito Santo.
Nessa época, era concenso entre os sacerdores consultados que o fiel católico poderia manter seu direito a não se vacinar, desde que isso não prejudicasse seu estado de vida e seus deveres de estado, por exemplo, como provedor da família. Mas, qualquer que fosse a escolha, nunca seria lícito mentir. Não forjar um cartão de vacina falso, não dizer que se vacinou quando não se vacinou, não apresentar prints de comprovantes falsos. Enfim, não fazer nada que pudesse dar margem à mentira, uma vez que mentir é pecado.
Se Mauro Cid tivesse se aconselhado com algum bom sacerdote, parte dos problemas criados por ele não existiriam. Mentiu antes forjando um cartão de vacina, permaneceu cada vez mais na mentira, com uma delação falsa.
Pecado
Santo Agostinho, em sua obra Sobre a Mentira nos ensina que a mentira é incompatível com a vida moral reta. Na mentira, há uma intenção de querer enganar o interlocutor, um ato da vontade e consciente. A mentira é, portanto, pecado contra a justiça e pecado contra a caridade.
Para Santo Agostinho, toda mentira é pecado, ainda que existam diferentes graus de gravidade. Nenhuma mentira, mesmo a mais bobinha, é moralmente aceitável.
Ele argumenta que a verdade é um bem absoluto, pois tem origem divina. Mentir implica em afastar-se de Deus, que é a própria Verdade. Mesmo as mentiras com boas intenções corrompem a alma, pois não é lícito fazer o mal (mentir) para alcançar um bem. Admitir exceções abriria caminho para a relativização da verdade, comprometendo a integridade moral do indivíduo e da comunidade. Assim, mesmo diante de situações extremas, diz Santo Agostinho, o católico deve permanecer fiel à verdade.
A direita brasileira
Diante de tanto horror que todos nós deveríamos ter à mentira, causa perpexidade que muitos políticos, eleitores e influenciadores de direita, alguns ditos conservadores e/ou cristãos, que juram se pautar por princípios e valores, tenham encontrado em um mentiroso compulsivo com fama de charlatão o seu representante ideal nas eleições municipais de 2024 em São Paulo.
O fenômeno Pablo Marçal é a prova inconteste de que parte dos conservadores brasileiros não conseguem identificar quem de fato defende a verdade, princípios e valores e quem apenas repete palavras de efeito, que mudam ao sabor do público a ser atingido.
Se queremos melhorar enquanto sociedade, fazer escolhas corretas na política, precisamos olhar para nós mesmos e examinar o quanto estamos sendo condenscendentes com o pecado e com a mentira.
Se o cartão de vacinação falso já era inaceitável para um cristão, que dirá um laudo falso para prejudicar a outrem. Ainda que esse outro seja mal, deverímos lançar mão de métodos malígnos como forma de combater o mal?
Se o mal vencer em nossos corações, qualquer suposta vitória na vida secular será uma falsa vitória. Um mentira.

