Entenda o cerco da PF sobre Lulinha

Mensagens, pagamentos de viagens e suspeitas de atuação para negócios junto ao governo colocam filho do presidente Lula no centro de diferentes frentes de investigação da Polícia Federal. Confira o apanhado feito de forma cronológica sobre as suspeitas que pairam sobre Lulinha.
As suspeitas envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ganharam novos contornos ao longo de 2026. O que inicialmente aparecia como uma possível ligação indireta com Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, passou a incluir mensagens, viagens, movimentações financeiras e suspeitas de atuação para viabilizar negócios privados junto ao governo federal.
Lulinha nega irregularidades e sua defesa sustenta que as investigações vêm sendo construídas a partir de ilações. Até o momento, as suspeitas descritas pela Polícia Federal não equivalem a uma condenação.
2024: viagens, negócios e a aproximação com o Careca do INSS
Parte dos fatos que hoje interessam à Polícia Federal remonta a 2024.
A empresária e lobista Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha, reconheceu posteriormente à PF que apresentou o filho do presidente ao Careca do INSS antes da deflagração da Operação Sem Desconto. Segundo ela, porém, Lulinha não prestou serviços relacionados à regulação do mercado de canabidiol nem recebeu recursos pela atividade.
Roberta mantinha negócios com Antunes relacionados ao mercado de cannabis medicinal. A PF passou a investigar se, por trás dessas relações, existia uma estrutura destinada a utilizar contatos políticos para abrir portas dentro do governo.
As suspeitas ganharam força com mensagens examinadas pelos investigadores. Segundo a PF, Roberta dizia falar em nome de Lulinha — chegando a utilizar a expressão “Eu sou o Fábio” — enquanto discutia um projeto de cannabis medicinal que pretendia negociar com o governo. Os diálogos também mencionavam uma expectativa de remuneração de 20% sobre o negócio.
Janeiro de 2025: pressão para que “Fábio se mexesse”
As conversas recuperadas pela PF revelam outro capítulo em janeiro de 2025.
No dia 23, Roberta reclamou da pressão exercida pelo Careca para que os negócios avançassem e afirmou que seria bom que “o Fábio se mexesse”.
A interpretação registrada pela Polícia Federal é especialmente comprometedora para a linha de defesa do filho do presidente: para os investigadores, as demandas feitas por Antunes dependiam da intervenção de Fábio.
Dias depois, em 27 de janeiro, Roberta discutia uma maneira de capitalizar o Careca e pressionava pela aquisição de kits de combate à dengue. A PF destacou ainda uma mensagem em que ela mencionava ter prazo porque “Fábio vai embora”, em referência à futura mudança de Lulinha para o exterior.
Abril de 2025: o esquema do INSS e o filho do rapaz
O contexto tornou-se muito mais grave quando a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União deflagraram, em abril de 2025, a Operação Sem Desconto.
A investigação passou a apurar um gigantesco esquema de descontos associativos não autorizados sobre aposentadorias e pensões. O Careca do INSS tornou-se um dos personagens centrais da apuração e acabaria preso em setembro daquele ano.
Foi a investigação sobre Antunes que começou a revelar também seus vínculos com pessoas próximas a Lulinha.
Uma das mensagens apreendidas tornou-se particularmente relevante: Antunes pediu a um operador que transferisse R$ 300 mil para uma empresa de Roberta. Questionado sobre quem receberia o dinheiro, respondeu que seria “o filho do rapaz”. A PF passou a investigar se a referência seria a Lulinha.
Ao todo, Roberta teria recebido R$ 1,5 milhão do lobista em parcelas, segundo a investigação.
Roberta entra no centro das investigações
A relação entre Roberta, o Careca e Lulinha tornou-se um dos principais pontos de interesse da PF.
A corporação chegou a descrever a atuação da empresária como essencial para estruturas usadas para movimentação de valores e ocultação patrimonial. Ela foi alvo de busca e apreensão e posteriormente passou a ser monitorada por tornozeleira eletrônica.
Em depoimento prestado em maio de 2026, Roberta admitiu que apresentou Lulinha ao Careca, mas negou que o amigo tivesse recebido dinheiro ou prestado serviços relacionados ao projeto de canabidiol. Disse também que desconhecia eventuais atividades ilícitas de Antunes.
Viagens e dinheiro
Outra frente da apuração passou a seguir o caminho do dinheiro.
Em março, veio a público que uma agência de viagens utilizada por Lulinha havia recebido cerca de R$ 640 mil de uma empresa de Roberta. A PF investigou a possibilidade de os recursos terem relação com dinheiro recebido por ela de empresa ligada ao Careca do INSS.
A PF identificou que Roberta também fazia movimentações relevantes de dinheiro em espécie. Em 25 de junho de 2025, seu motorista teria feito duas coletas, de R$ 100 mil e R$ 200 mil. Segundo a investigação, R$ 50 mil foram posteriormente enviados para uma agência que havia emitido passagens para Roberta e Lulinha. Naquele mesmo dia, a agência foi utilizada para comprar passagens dos dois entre Brasília e São Paulo.
Outro diálogo chamou a atenção dos investigadores: em agosto de 2025, Roberta afirmou que não poderia continuar gastando com passagens porque já desembolsava R$ 100 mil mensais com uma casa usada por Lulinha, segundo transcrição feita pela PF.
2026: sigilos quebrados e Lulinha entra no centro das investigações
Ao longo de 2026, a situação deixou de ser apenas uma coleção de referências ao nome de Lulinha em investigações sobre terceiros.
A Polícia Federal passou a investigar diretamente sua atuação.
Em março, já havia suspeitas de que Lulinha pudesse ter atuado como sócio oculto do Careca do INSS. Por determinação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, foram quebrados os sigilos bancário, fiscal e telemático do filho do presidente.
Em 30 de julho, foi aberto um inquérito para investigar se Lulinha e Roberta atuaram para favorecer a World Cannabis, empresa ligada ao Careca, em negócios relacionados ao Ministério da Saúde. A apuração envolve suspeitas de corrupção e tráfico de influência.
Outras frentes foram abertas nos dias seguintes. Em agosto, já eram conhecidos três inquéritos envolvendo Lulinha, dois deles relacionados a suspeitas de tráfico de influência.
PF fala em “comunhão de interesses econômicos”
A avaliação dos investigadores ficou ainda mais contundente em documentos revelados em agosto.
Segundo representação encaminhada ao STF, a Polícia Federal afirma ter identificado uma “comunhão de interesses econômicos” entre Lulinha e Roberta.
A corporação também levanta a hipótese de uma “sociedade oculta” envolvendo os dois e o empresário Fernando Bittar em negócios relacionados à cannabis medicinal.
Para os investigadores, a atuação identificada não se resumiria à representação legítima de interesses privados.
A PF afirma que os elementos reunidos apontam uma estrutura informal destinada a captar e executar demandas privadas perante agentes públicos, com expectativa de vantagens econômicas. Segundo a corporação, Roberta teria atuado sistematicamente junto ao Ministério da Saúde e ao gabinete presidencial, na figura do então chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, enquanto Lulinha teria aparentemente acompanhado ou impulsionado determinadas tratativas.
Marcola teria recebido da lobista Roberta Luchsinger cerca R$ 249 mil em pagamentos de despesas pessoais, empréstimos e presentes, inclusive joias destinadas à sua companheira.
A investigação chegou a apontar o Lulinha como “beneficiário indireto” da atuação de Roberta.
A questão já não se limita à alegação feita por um ex-funcionário do Careca ou a uma frase isolada encontrada em um celular. A PF passou a reunir mensagens, pagamentos de despesas, viagens, relações comerciais e tentativas de intermediação de negócios junto ao governo, formando o conjunto de elementos que fundamentou a abertura de investigações específicas contra Lulinha.
As revelações mais recentes tornam inevitável uma pergunta que agora está no centro das investigações: qual era, afinal, o papel de Lulinha nos negócios conduzidos por sua amiga Roberta Luchsinger e qual era a extensão de sua relação com o Careca do INSS?
É justamente isso que a Polícia Federal tenta esclarecer.

